Talk Show Literário: Severino
- Ricardo Bonacorci
- 17 de nov. de 2021
- 7 min de leitura
Na mais nova entrevista de Darico Nobar, o convidado do TSL é a personagem mais famosa da poesia de João Cabral de Melo Neto.

Vocalista: Quando oiei a terra ardendo, qual fogueira de São João, eu preguntei a Deus do Céu: uai, por que tamanha judiação? [A cantoria tem o acompanhamento do restante da banda. No palco, os músicos executam a canção aos olhos (e ouvidos) do apresentador e da plateia que lota o auditório]. Eu preguntei a Deus do Céu: uai, por que tamanha judiação? Que braseiro, que fornaia. Nenhum pé de prantação. Por farta d´água, perdi meu gado. Morreu de sede meu alazão. Por farta d´água, perdi meu gado. Morreu de sede meu alazão. [Ao primeiro sinal do âncora do programa, a música é imediatamente interrompida].
Plateia: Uhu! Bravo!!! Eeeeeeeeeh. [Gritos e aplausos ecoam pelo auditório].
Darico Nobar: Boa noite, galerinha que é fã da literatura brasileira.
Plateia: Boooooooooa, noooooooooite!
Darico Nobar: É no ritmo do baião de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira que começamos mais um Talk Show Literário. E saibam que essa abertura não foi por acaso, não. No programa de hoje, vamos receber uma das figuras mais icônicas da poesia sertaneja. No palco agora com vocês, ele, a personagem emblemática dos versos de João Cabral de Melo Neto. Estou falando de Severino. Vem para cá, meu amigo!
[Retirante nordestino se levanta da cadeira no meio do auditório e caminha até o centro do palco, onde é recebido com um abraço pelo entrevistador. A dupla se acomoda em seus respectivos assentos].
Darico: Boa noite, Severino de... Severino de... [Procura uma informação em suas anotações, mas não a encontra]. Severino, qual é mesmo o seu sobrenome?
Severino: O meu nome é Severino, não tenho outro de pia.
Darico: Não tem sobrenome?! Isso não existe, rapaz. Todo mundo tem um sobrenome.
Severino: Como há muitos Severinos, que é santo de romaria, deram então de me chamar de Severino de Maria.
Darico: Entendi. Vou chamá-lo de Severino de Mar...
Severino: Como há muitos Severinos com mães chamadas Maria, fiquei sendo o da Maria do finado Zacarias.
Darico: Sei.
Severino: Mas isso diz pouco, né? Há muitos na freguesia, por causa de um coronel que se chamou Zacarias e que foi o mais antigo senhor daquela sesmaria.
Darico: Então como eu posso te apresentar?
Severino: Vejamos: sou o Severino do Zacarias, lá da serra da Costela, limites da Paraíba. Mas isso ainda diz pouco: se ao menos mais cinco havia com o nome de Severino filhos de tantas Marias mulheres de tantos outros, já finados, Zacarias, vivendo na mesma serra magra em que eu vivia.
Darico: Tá ficando complicado para mim. [Coça a cabeça]. Não sabia que tinha tantos Severinos no Sertão.
Severino: Somos muitos Severinos iguais em tudo na vida: na mesma cabeça grande que a custo é que se equilibra, no mesmo ventre crescido sobre as mesmas pernas finas, e iguais também porque o sangue que usamos tem pouca tinta. E se somos Severinos iguais em tudo na vida, morremos de morte igual, mesma morte severina.
Darico: O que é uma morte severina?!
Severino: É a morte de que se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia. De fraqueza e de doença é que a morte severina ataca em qualquer idade, e até gente não nascida.
Darico: Morte matada ou morte morrida?
Severino: Pode ser morte morrida, irmão das almas, como tantas numa emboscada. E pode ser morte morrida, pela vida escorrida e pela fome desmedida.
Darico: Acho que entendi... Vou te chamar de Severino. Apenas Severino, está bem assim?
Severino: Somos muitos Severinos iguais em tudo e na sina: a de abrandar estas pedras suando-se muito em cima, a de tentar despertar terra sempre mais extinta, a de querer arrancar algum roçado da cinza. Mas, para que me chames melhor, Vossa Senhoria, e melhor possa compreender a história de minha vida, passo a ser o Severino que em vossa presença emigra.
Darico: Por falar em emigrar, soube que você caminhou até o Recife. Como foi a viagem?
Severino: Foi indo, a viagem foi longa, irmão das almas. Pensei que seguindo o rio eu jamais me perderia: ele é o caminho mais certo, de todos o melhor guia. Mas como segui-lo se até ele está morrendo? Vejo que o Capibaribe, como os rios lá de cima, é tão pobre que nem sempre pode cumprir sua sina e no verão também corta, com pernas que não caminham.
Darico: O que você fazia na sua terra, Severino?
Severino: Pois fui sempre lavrador, lavrador de terra má; não há espécie de terra que eu não possa cultivar. Até a calva da pedra sinto-me capaz de arar.
Darico: O que exatamente você cultivava por lá?
Severino: Plantava todas as roças que naquele chã podiam dar: o algodão, a mamona, a pita, o milho, o caroá. Melhor do que eu ninguém sabe combater, quiçá, tanta planta de rapina que tinha visto por lá. Tirei mandioca de chãs que o vento vivia a esfolar e de outras escalavradas pela seca faca solar.
Darico: Além de plantar, o que mais você fazia no Sertão?
Severino: Sei também tratar de gado, entre urtigas pastorear: gado de comer do chão ou de comer ramas no ar. Em qualquer das cinco tachas de um bangüê sei cozinhar. Sei cuidar de uma moenda, de uma casa de purgar.
Darico: E por que você quis se mudar?
Severino: Nunca esperei muita coisa, digo a Vossa Senhoria. O que me fez retirar não foi a grande cobiça; o que apenas busquei foi defender minha vida da tal velhice que chega antes de se inteirar trinta; se na serra vivi vinte, se alcancei lá tal medida, o que pensei, retirando, foi estendê-la um pouco ainda.
Darico: E por que ir em direção ao mar?
Severino: Bem me diziam que a terra se faz mais branda e macia quanto mais do litoral a gente se aproxima. Como ela é uma terra doce para os pés e para a vista. Os rios que correm ali têm a água vitalícia. Cacimbas por todo lado; cavando o chão, água mina. Decerto o povo dali jamais envelhece aos trinta nem sabe da morte em vida, vida em morte, severina; e o cemitério deles, branco na verde colina, decerto pouco funciona e poucas covas aninha.
Darico: E o que você achou do Recife, hein? É uma bela cidade, não é, Severino?
Severino: Para gente severina, não tem diferença entre o Agreste e a Caatinga, entre a Caatinga e a Mata, e entre a Mata e o Litoral. A diferença é mesmo mínima. Está apenas em que a terra pode ser mais macia; está apenas no pavio, ou melhor, na lamparina: pois é igual o querosene que em toda parte ilumina, e quer nesta terra gorda, quer na serra, de caliça, a vida arde sempre com a mesma chama mortiça.
Darico: Visitei algumas vezes a capital pernambucana e a achei maravilhosa.
Severino: Agora é que compreendo por que em paragens tão ricas o rio não corta em poços como ele faz na Caatinga: vive a fugir dos remansos a que a paisagem o convida, com medo de se deter, grande que seja a fadiga.
Darico: Nossa, Severino, essas palavras são muito negativas. Até parece que você vive carregando uma cruz nas costas.
Severino: Quem sabe se nesta terra não plantei minha sina?
Darico: Seja sincero comigo: a nova vida no litoral não é melhor, meu amigo?! Qual o tamanho da sua felicidade agora?
Severino: É de bom tamanho, nem largo nem fundo, é a parte que me cabe neste latifúndio.
Darico: Ainda não senti firmeza de sua parte. As coisas para você não estão melhores no Recife do que eram no Sertão?
Severino: Nunca esperei muita coisa, é preciso que eu repita. Sabia que no rosário de cidades e de vilas, e mesmo lá no Recife ao acabar minha descida, não seria diferente a vida de cada dia: que sempre pás e enxadas foices de corte e capina, ferros de cova, estrovengas o meu braço esperariam. Mas que se este não mudasse seu uso de toda vida, esperei, devo dizer, que ao menos aumentaria na quartinha, a água pouca, dentro da cuia, a farinha, o algodãozinho da camisa, ou meu aluguel com a vida.
Darico: Aluguel com a vida?!
Severino: Seu Darico, mestre da literatura, e que interesse, me diga, há nessa vida a retalho que é cada dia adquirida? Espera poder um dia comprá-la em grandes partidas? Por mim, pago diariamente a prestação da fome e da miséria desde a viagem que fazia. Sem saber, desde o Sertão, meu próprio enterro eu seguia. Só que devo ter chegado adiantado de uns dias; o enterro espera na porta: o morto ainda está com vida.
Darico: Qual é o grande sonho da sua vida, Severino?
Severino: Vida? A solução é apressar a morte a que se decida e pedir a este rio, que vem também lá de cima, que me faça aquele enterro que o coveiro descrevia: caixão macio de lama, mortalha macia e líquida, coroas de baronesa junto com flores de aninga, e aquele acompanhamento de água que sempre desfila.
Darico: Severino, foi um prazer recebê-lo no Talk Show Literário. Mas infelizmente, o programa de hoje está morrendo... quero dizer, terminando. O programa está terminando, terminando.
Severino: Sim, o melhor é apressar o fim desta ladainha, fim do rosário de palavras que a linha da prosa enfia; é chegar logo em casa, derradeira ave-maria do rosário, derradeira invocação da ladainha, casa, onde a vida some e esta minha viagem se fina.
Darico: Pessoal, ficamos por aqui. Boa noite a todos e até o nosso próximo encontro. No mês que vem, vocês já sabem – voltaremos com mais uma entrevista ao vivo e exclusiva com as grandes figuras da literatura brasileira. Até lá.
[Apresentador e convidado são aplaudidos mais uma vez pela plateia].
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O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas quatro primeiras temporadas, neste quinto ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias.