Lançado em novembro de 2024 no Brasil e dono da estatueta do Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025, o longa-metragem do cineasta carioca é a adaptação do livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva que retrata as memórias de uma família destruída pela violência da Ditadura Militar nos anos 1970.

Ricardo, por que só agora você está analisando “Ainda Estou Aqui” (2024), uma das mais importantes produções da história do cinema brasileiro e sucesso recente de crítica e público nos quatro cantos do mundo?! Responda, vai! E não faça essa cara de cachorro abandonado! Não me diga que você virou bolsominion e resolveu boicotar o filme de Walter Salles que foi baseado no livro de memórias de Marcelo Rubens Paiva? Ou, nem posso conceber essa possibilidade, esperou o resultado do Oscar de 2025 para só aí engolir o orgulho próprio e surfar no sucesso internacional do filme protagonizado por Fernanda Torres e Selton Mello. Foi isso o que aconteceu, hein? Ricardo, que decepção! Nunca imaginei que você fosse se converter num desalmado que abraça violências e preconceitos e despreza a cultura e as artes do próprio país. Olha, se eu pudesse, ia até aí e falava na sua cara que...
Calma, calma, estimado(a) e desavisado(a) leitor(a) do Bonas Histórias. Sei do atraso do conteúdo da coluna Cinema e me envergonho profundamente pelo timing equivocado do meu trabalho como crítico cinematográfico. Estou me sentindo tão culpado quanto o soldado solitário que amparou Eunice Paiva nos corredores do DOI-CODI do Rio de Janeiro em janeiro/fevereiro de 1971. Contudo, destaco que as acusações que estão sendo atiradas em mim neste momento são injustas, muito injustas, injustíssimas. Aí a semelhança é com Rubens Paiva, que não entendia a violência empregada pelo grupelho fardado que, de repente, o via como um inimigo perigoso do Estado e um subversivo sanguinolento da nação verde-amarela.
Erguendo com convicção a bandeira branca com o desenho da pombinha voadora ao centro, peço que pare por um instante com a gritaria, abaixe as armas e me escute. POR FAVOR! Você me fez lembrar a milico de San Miguel, que como uma boa instrutora de tiro do Exército argentino, primeiro descarregava a munição ao chegar em casa e só depois começava a conversar com o mínimo de sanidade. Bons tempos aqueles... Voltando ao nosso assunto, juro que não fui para o lado mau da força: não estou fazendo compras na Havan, não desfilo com a camisa da Seleção Brasileira, não utilizo o Telegram, não tomo vermífugo no café da manhã e, principalmente, não comecei a ruminar, tá? A justificativa da falha cinematográfica deste pequenino blog pode ser mais pueril do que a vã imaginação popular conseguiria supor.
Como moro em Mi Buenos Aires Querido há um ano e meio (portanto, cheguei bem antes do Peluca León No Hay Plata ser eleito – não me acuse de libertário!), precisei esperar a chegada do longa-metragem brasileiro às salas de cinema portenhas. E isso só aconteceu em 20 de fevereiro de 2025, dez dias antes da grande cerimônia da Academia de Ciências Cinematográficas de Los Angeles. Não por acaso, esse foi o último filme que disputava o Prêmio do Oscar deste ano que conferi. Diferentemente de colegas mais gloriosos(as), assisto a todos os postulantes à estatueta. É verdade que quase nunca acerto os palpites dos vencedores. E dessa vez não foi diferente. Acreditava que “O Brutalista” (The Brutalist: 2024) fosse papar as principais categorias. E não esperava o reconhecimento a “Anora” (2024), produção independente do genial Sean Baker.

Estava tão ansioso por ver “Ainda Estou Aqui”, conforme expus no post de “Emilia Pérez” (2024), que fui correndo à rede de exibição mais perto de casa já no dia seguinte à sua estreia. Pela quantidade de pessoas na sessão do Multiplex Belgrano em uma sexta-feira à tarde (inclusive com gente conhecida – beijo, Carolzinha; só não te cumprimentei porque você estava acompanhada e fez cara de poucos amigos quando passou por mim), não era só eu que tinha a curiosidade para conferir esse lançamento. O cinema estava quase lotado em um horário pouco popular: 17h40. A brasileirada de CABA (o que mais se ouvia na sala era português) e muitos argentinos cinéfilos (também havia muitos locais na sessão vespertina) demonstravam avidez descomunal para atestar a qualidade do concorrente sul-americano à principal estatueta da Sétima Arte.
Uma vez visto o filme de Walter Salles, o problema mudou de configuração: não consegui espaço no blog para discorrer sobre esta produção. Na primeira segunda-feira de março, preferi apresentar aos leitores do Bonas Histórias a avaliação geral dos vencedores do Oscar de 2025. Nada mais justo, né? A premiação tinha ocorrido no domingo de madrugada e me senti na obrigação de comentar na manhã seguinte as escolhas da Academia. E nas duas semanas posteriores (ou, dependendo do ponto de vista, nas duas últimas semanas), priorizei publicações atrasadas das colunas Mercado Editorial e Livros – Crítica Literária. Por isso, trouxe a lista com as obras de ficção e poesia que foram lançadas no Brasil no primeiro bimestre e a análise crítica de “1+1=2 2-1=0” (CEPE Editora), o maravilhoso romance de Fernanda Caleffi Barbetta. Dessa maneira, a discussão pormenorizada de “Ainda Estou Aqui” acabou preterida por quase um mês.
Foi isso o que aconteceu. Inspira, expira. Juro que não virei bolsonarista e continuo com o mínimo de racionalidade (e dignidade). Inspira, expira. Também não estou boicotando esse filmão que representou o (re)florescimento do combalido cinema nacional nem torci contra a conquista da inédita estatueta dourada pelo meu país. Inspira, expira. Muito menos sou contra a arte e cultura (justamente as matérias-primas do Bonas Histórias!). Inspira, expira. Já se acalmou? Que bom. Tome aqui um copinho de água com açúcar que vai ajudar. Beba tudo sem pressa. Isso! Muito bem.
Refletindo com um pouco mais de serenidade, o atraso na análise de “Ainda Estou Aqui” pode até ter sido positivo para a coluna Cinema. Nesse sentido, reconheço que os Bonacorci são tão otimistas quanto os Facciolla – sempre vemos a parte mais cheia do copo. Sem a pressão pela torcida do Oscar inédito (embarquei na onda de meus compatriotas e estava ansioso pelo resultado do principal evento do cinema internacional), posso agora analisar com a devida isenção o filme de Walter Salles e Fernanda Torres. Afinal, ele é tão bom assim quanto a mídia brazuca aponta há três meses?! Mereceu os aplausos obtidos mundo à fora e a premiação na cerimônia de Los Angeles no começo do mês? Podemos considerá-lo como o melhor filme já produzido em nosso país? Note que para obter respostas adequadas para tais questões, não dá para analisar o longa-metragem no calor da emoção.

Para completar o quadro de ponderações, o tempo extra me permitiu inclusive ler “Ainda Estou Aqui” (Alfaguara), o livro de memórias de Marcelo Rubens Paiva no qual o roteiro cinematográfico foi baseado. Quais as principais semelhanças e diferenças do filme de Walter Salles para o título literário de Marcelo, hein? Qual das duas versões é a melhor? Fazendo jus ao conteúdo multicultural do Bonas Histórias, cujos pilares centrais são justamente a literatura e a Sétima Arte, não poderia deixar passar batida a confluência entre as colunas Livros – Crítica Literária e Cinema.
Esclarecimentos feitos (sou inocente de todas as acusações do primeiro parágrafo!) e apresentadas as prioridades do que vamos discutir daqui para frente (lista também conhecida como pauta do post de hoje), podemos prosseguir. No caso, não seria prosseguir e sim começar efetivamente esta publicação. Porque, não sei se você percebeu, mas até agora só me defendi de insinuações mentirosas e imputações levianas da qual fui vítima. Ai, ai, ai.
Então, chega de encheção de linguiça (em espanhol essa expressão seria llenar chorizo?!) e sem ressentimento, vamos para o que eu e você viemos fazer aqui: discutir “Ainda Estou Aqui” de maneira densa e isenta. Porque estamos no Bonas Histórias, senhoras e senhores, o espaço democrático da arte e da cultura. Se não somos rápidos ao ponto de trazer em primeira mão as temáticas que agitam o país, pelo menos somos profundos para produzir conteúdos completos e abrangentes de velhos assuntos.
Lançado no circuito comercial nacional em novembro de 2024, nos Estados Unidos e na Europa em janeiro de 2025 e na parte hispânica da América Latina em fevereiro de 2025, “Ainda Estou Aqui” é o mais importante trabalho de Walter Salles, um dos principais cineastas brasileiros de todos os tempos. Entre os sucessos do diretor e roteirista carioca de 68 anos estão: “Terra Estrangeira” (1995), um dos símbolos da retomada do cinema nacional em meados da década de 1990; “Central do Brasil” (1998), indicado ao Oscar de 1999 nas categorias Melhor Filme Internacional (na época, chamada de Melhor Filme Estrangeiro) e Melhor Atriz (Fernanda Montenegro); e “Abril Despedaçado” (2001), indicado ao Globo de Ouro e ao Bafta de 2002 na categoria Melhor Filme Estrangeiro. Muita gente não sabe e outros tantos se esqueceram, mas Salles foi um dos produtores de “Cidade de Deus” (2002), o melhor filme brasileiro de todos os tempos.

O sucesso no cinema brasileiro o levou ao exterior. Assim, ele dirigiu alguns bons longas-metragens gringos de gêneros distintos. Destaque para “Diários de Motocicleta” (Diarios de Motocicleta: 2004), drama histórico baseado nas memórias do jovem Che Guevara, “Água Negra” (Dark Water: 2005), versão norte-americana de um filme de terror japonês, e “Na Estrada” (On The Road: 2011), aventura inspirada em “On The Road – Pé na Estrada” (L&PM Pocket), clássico beat de Jack Kerouac. Ao ir para Hollywood, Walter Salles pôde trabalhar em produções com maiores orçamentos e foi visto por públicos mais amplos nos quatro cantos do planeta. Por outro lado, teve que renunciar aos trabalhos mais autorais, como aqueles do início da carreira. É a famosa faca de dois gumes.
Nesse contexto, o desenvolvimento de “Ainda Estou Aqui” foi o retorno ao cinema mais artesanal e criativo em sua terra natal. Não por acaso, o filme se transformou no melhor título de Salles até aqui. Ele é a cereja do bolo que seu rico portfólio audiovisual merecia. Vale a pena esclarecer que não foram apenas as três indicações ao Oscar de 2025 (Melhor Filme, Melhor Filme Internacional e Melhor Atriz – Fernanda Torres) e a estatueta inédita para o Brasil (Melhor Filme Internacional) que atestam a qualidade dessa produção. A volta do público às salas de cinema no país após a pandemia da Covid-19 e a retomada da discussão sobre o fomento à Sétima Arte nacional (o longa de Walter Salles não contou com NENHUM apoio público) representaram marcos significativos para uma indústria tão combalida nos últimos anos.
Além do mais, a dimensão do sucesso da cinebiografia de Eunice Paiva, uma mulher que enfrentou com a cabeça erguida a covardia e a violência da Ditadura Militar, ultrapassou a dimensão das telonas e as fronteiras do campo artístico-cultural. O Executivo, o Judiciário e o Legislativo brasileiros passaram, por exemplo, a rediscutir crimes praticados pelo regime de exceção nas décadas de 1960, 1970 e 1980, algo que ficou parado nos últimos anos com a ascensão de governos de direita e de extrema-direita. Tudo porque a repercussão do filme atingiu em cheio a sociedade e a mídia cansadas das injustiças do passado. Convenhamos que são feitos notáveis para um filme!
Orçado oficialmente em R$ 8 milhões, ou pouco menos de US$ 1,5 milhão (se bem que informalmente os profissionais envolvidos com esse projeto falam que ele demandou bem mais, algo como R$ 45 milhões, ou pouco mais de US$ 7,5 milhões) e gravado essencialmente no Rio de Janeiro, “Ainda Estou Aqui” tem em seu elenco, além dos já citados Fernanda Torres e Selton Mello, Fernanda Montenegro, Valentina Herszage, Maria Manoella, Marjorie Estiano, Antonio Saboia, Dan Stulbach, Daniel Dantas, Pri Helena, Carla Ribas etc. Esses são os nomes mais conhecidos do grande público. Há também o núcleo infantojuvenil e infantil composto por Luiza Kosovski, Bárbara Luz, Guilherme Silveira e Cora Mora. Vamos combinar que a participação da molecada potencializa a dramaticidade da história, além de trazer graça e charme ao longa-metragem.

O roteiro de “Ainda Estou Aqui” ficou à cargo da dupla Murilo Hauser e Heitor Lorega, que já trabalhou em conjunto em “Marinheiros das Montanhas” (2021), documentário dirigido por Karim Aïnouz. Por falar em Aïnouz, quem curtiu “A Vida Invisível” (2019), sucesso recente do cineasta cearense que foi o representante brasileiro no Oscar de 2020 (mas não chegou a ser finalista), saiba que Murilo Hauser foi roteirista desta produção.
Como já falei, o novo filme de Walter Salles foi baseado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, autor best-seller desde sua estreia na literatura em 1982 com o inesquecível “Feliz Ano Velho” (Alfaguara). Por falar nisso, há algumas semanas utilizamos o protagonista de “Feliz Ano Velho” para desenvolver uma entrevista do Talk Show Literário. Tá bom, tá bom. Não vou mais desviar do nosso assunto de hoje... Publicado em 2015, “Ainda Estou Aqui” apresenta em primeira pessoa o relato do filho de Rubens Paiva e Eunice Paiva sobre o drama histórico que sua família enfrentou após a visita de militares armados à sua residência no Leblon em 20 de janeiro de 1971. Para quem ainda não sabe, Marcelo é filho de Rubens e Eunice, os protagonistas da trama.
Esquecemos por um momento do livro e vamos nos ater exclusivamente ao enredo do filme. A versão cinematográfica de “Ainda Estou Aqui” começa em dezembro de 1970. A família Paiva vive alegremente em uma casa alugada à beira da praia do Leblon. Rubens Beyrodt Paiva (interpretado por Selton Melo) é o engenheiro santista que atua como sócio em uma construtora em franca expansão no Rio de Janeiro. Ele foi eleito deputado federal em 1962, mas dois anos depois foi cassado com o Golpe Militar de 1964. Agora está afastado formalmente da política, apesar de seguir tendo contatos com gente influente em Brasília e nas capitais fluminense e paulista.
Rubens é casado com Maria Lucrécia Eunice Facciolla Paiva (Fernanda Torres), mulher culta, elegante e simpaticíssima. Eles têm cinco filhos: quatro meninas – Vera (Valentina Herszage), a mais velha e em idade para entrar na faculdade, Eliana (Luiza Kosovski), Nalu (Bárbara Luz), ambas adolescentes, e Bia (Cora Mora), ainda criança – e um menino – Marcelo (Guilherme Silveira), de mais ou menos onze anos. O porta-retrato é completado com um pequeno cachorrinho vira-lata, Pimpão, que estava perdido na praia e foi adotado pela família. Para ajudar na administração doméstica, os Paiva contam com Zezé (Pri Helena), empregada que mora na casa (ao melhor estilo do Brasil dos anos 1970 e 1980).

O cotidiano desse lar de classe média no Rio de Janeiro é tão feliz que beira o mundo onírico ou mesmo o universo idílico. Rubens e Eunice são apaixonados um pelo outro e, mesmo com cinco filhos a tiracolo, conseguem ter tempo para se curtir. Eles também adoram receber as visitas de amigos, familiares, colegas e vizinhos. A residência no Leblon é o point de encontro de artistas, intelectuais, políticos e empresários de renome nacional. O entra e sai da casa dos Paiva ainda conta com a infinidade de amigos, namorados e colegas dos filhos. As crianças e os adolescentes que usam rotineiramente aquele espaço conferem uma energia saudável, leve, divertida e jovial ao ambiente doméstico.
Contudo, é perceptível que o clima alegre e descontraído da metrópole carioca e do Brasil está mudando. O início dos anos 1970 marcou a intensificação da repressão da Ditadura Militar brasileira, que tomou o poder em 1964. Conforme Raul Ryff (Daniel Dantas), jornalista e político de oposição ao regime fardado, fala no início do filme: “Brasília está pegando fogo. Milicos vão cair matando!”. O problema é que suas palavras deixam rapidamente o campo metafórico e se tornam literais. Na virada de 1970 para 1971, a polícia já está prendendo e agredindo a população indiscriminadamente. É o famoso: primeiro bate e depois pergunta. E o Exército tortura e mata aqueles que são contrários à Ditadura fardada. Em pouco tempo, ações de grupos armados de oposição aos militares sequestra embaixadores gringos em troca da liberação de presos políticos. A última grande ação desse tipo é o sequestro do embaixador suíço em dezembro de 1970, que monopoliza o noticiário do país inteiro e provoca a reação intempestiva dos órgãos de segurança. Ao mesmo tempo, famílias deixam o Brasil em direção ao exílio voluntário ou forçado. O caminho prioritário é os vizinhos da América do Sul, a Europa e os Estados Unidos.
Sabendo dessa realidade complicadíssima, os Paiva cogitam se seria hora de ir também para o exterior, como muitos amigos estão fazendo. Rubens é contrário a essa ideia defendida por Eunice. Ele acha que o momento ruim que o país vive será passageiro e que não há motivos para tantas preocupações. Mesmo assim, o casal envia Vera, chamada por todos de Veroca, para uma temporada em Londres. A moça que tem personalidade forte e já flerta com os movimentos juvenis é considerada pelos pais como um possível alvo dos milicos. Com a primogênita na Inglaterra, o casal de protagonistas sabe que a jovem não correrá tantos perigos e, assim, fica um pouco mais calmo.
Ou seja, os Paiva permanecem no Rio na virada de 1970 para 1971 com os outros quatro filhos. O sonho de Rubens e Eunice é construir uma grande casa para que todos os rebentos tenham quartos individuais, além de piscina e campinho de futebol. Para uma família gigantesca e com rotineiras visitas, a residência na Zona Sul carioca, por mais bem localizada e espaçosa que seja, se tornou minúscula. Como é construtor na cidade, Rubens descobriu um bom terreno para uma nova casa e já o comprou. Inclusive até desenhou a planta da nova morada, que contou com os palpites da esposa e da filharada. Aos poucos, eles construirão o lar definitivo dos Paiva.

Porém, os planos familiares são interrompidos na manhã do fatídico 20 de janeiro de 1971, data que nenhum Paiva jamais esquecerá. No feriado de São Sebastião com sol forte, calor e praia convidativa, a casa do Leblon é invadida por um grupo de homens à paisana e fortemente armado. Eles se identificam como integrantes do Exército e informam que estão ali para levar o antigo deputado para interrogatório. Destacam que é algo meramente burocrático e que Rubens estará de volta no final do dia. Demonstrando muita tranquilidade, o dono da casa não se opõe às ordens dos visitantes indesejados e pede para pelo menos se arrumar para o encontro com os militares. Aí surge a segunda grande surpresa. Mesmo com a saída de casa de Rubens, parte dos invasores permanece dentro da residência dos Paiva. Eles bisbilhotam a rotina da família, monitoram as visitas e ouvem as conversas telefônicas pela extensão. O mal-estar é crescente, principalmente quando as horas passam e o pai não retorna.
Para perplexidade de Eunice, no dia seguinte ela e Eliana, a filha mais velha ali presente (lembremos que Veroca está no exterior), são convocadas para interrogatório no Exército. Novamente as palavras dos brutamontes são as mesmas: é algo normal, de rotina, que não durará mais do que algumas horas. Dessa maneira, Eunice e a adolescente partem para o mesmo lugar em que Rubens foi enviado na véspera. As crianças ficam sob a supervisão de Zezé, que assustada se torna de repente a responsável pela casa e pelo cuidado dos pequenos.
No centro clandestino de interrogatório e tortura do DOI-CODI do Rio de Janeiro, Eunice conhece o lado mais obscuro da Ditadura Militar brasileira. Ela fica presa por 12 dias em um cubículo escuro e sem acesso à água. Nesse período, ouve presos gritando, sendo torturados, pedindo ajuda. Em reuniões para lá de tensas, é forçada a dizer nomes de subversivos que conheceria e que visitaram sua casa nos últimos meses. Por várias vezes, os milicos apresentam cadernos cheios de fotos para que a esposa de Rubens aponte “algum terrorista do Estado”. A única pessoa daquela lista que lhe é familiar, além do marido, é Martha (Carla Ribas), professora de música de suas filhas. Assustada, ela aponta para a mulher no retrato.
Depois de quase duas semanas presa, em que perdeu aproximadamente 20 quilos, Eunice é solta e pode regressar ao lar, para alegria dos filhos. Só nesse instante, ela descobre que Eliana tinha sido liberada já no dia seguinte a sua prisão e que Rubens ainda não regressou ao lar. Aí começa o seu martírio. Eunice Paiva fará o que for preciso para conseguir a liberação do marido. Para isso, contará com o apoio da influente e variada rede de amigos no Brasil e no exterior. Apesar da imprensa brasileira, que desde a implementação do AI-5 em 1969 estava sob censura, não noticiar o drama dos Paiva, nos Estados Unidos e na Europa a mídia repercute a prisão arbitrária do ex-deputado.
Ao mesmo tempo em que busca explicações para o que está acontecendo, Eunice precisa convencer os filhos que está tudo bem e que o pai logo retornará. Inicia-se, assim, um leque interminável de mentiras para as crianças e o estabelecimento de alguns assuntos tabus que não podem ser comentados dentro de casa.

Essa dinâmica é abalada com a volta de Veroca ao Brasil. A filha mais velha sabe de tudo o que aconteceu com os familiares, inclusive com o pai, porque acompanhava as notícias nos jornais ingleses. Para sua indignação, nenhum familiar conhecia os detalhes daquele caso que a maioria dos europeus tinha total ciência. Não é preciso dizer que esse choque de realidades provoca algumas fissuras na tênue harmonia familiar.
Apesar dos graves problemas emocionais e financeiros, Eunice Paiva segue impassível à procura de respostas do que aconteceu efetivamente com seu esposo. Nesse instante, surge a destemida e incansável mulher que os brasileiros iriam conhecer nos anos seguintes como defensora dos Direitos Humanos.
“Ainda Estou Aqui” possui 2 horas e 15 minutos de duração. Como é hábito no país em que escolhi para viver, o badalado filme brasileiro foi bastante aplaudido pela plateia no cinema portenho ao final da sessão em que estive presente no mês passado. É isso mesmo o que você leu: os argentinos têm a mania de aplaudir os longas-metragens que apreciam (e de aterrisagens perfeitas das aeronaves nos aeroportos). Juro que não os acompanho nesses momentos. São ainda muito estranhos para mim esses comportamentos. Mesmo assim, admito que deu vontade de me levantar da poltrona do Multiplex Belgrano e aplaudir efusivamente a produção de Walter Salles. Só não abri uma exceção e segui a galera porque... porque... porque não queria chamar a atenção da minha conterrânea que estava a algumas poltronas ao lado e não parecia nem um pouco feliz com nosso inusitado reencontro.
Precisamos reconhecer, senhoras e senhores, que “Ainda Estou Aqui” é um filmão. Ele mereceu sim a conquista do Oscar de Melhor Filme Internacional. Independentemente das escolhas dos jurados da Academia de Ciências Cinematográficas de Los Angeles na categoria Melhor Filme Geral, o longa-metragem brasileiro tem o mesmo nível de qualidade dos títulos que postulavam à principal estatueta do cinema internacional: “Anora”, que levou para casa cinco prêmios, “O Brutalista”, três, “Emilia Pérez”, “Duna – Parte 2” (Dune – Part Two: 2024) e “Wicked” (2024), cada um com dois troféus dourados, “A Substância” (The Substance: 2024), “A Verdadeira Dor” (A Real Pain: 2024) e “Conclave” (2024), uma estatueta cada, e “Babygirl” (2024) e “Um Completo Desconhecido” (A Complete Unknown: 2024), que saíram de mãos abanando. Para ser bem sincero com você, considerando a atual estrutura do cinema brasileiro, essa constatação já é um enorme feito da equipe de Walter Salles.

Os primeiros elementos de “Ainda Estou Aqui” que me impressionaram positivamente foram os cenários e os figurinos. A recriação dos anos 1970 está perfeita. Como esse é um drama histórico, tal ponto era essencial para a construção da atmosfera do filme. Repare nos detalhes dos carros, das roupas das personagens e dos móveis da casa dos Paiva que emulam a realidade de cinquenta anos atrás. O cuidado com a cenografia é de tirar o chapéu. O figurino foi comandado por Cláudia Kopke, uma das principais profissionais do país nessa área.
Outra questão marcante é a fotografia do filme. Temos a sensação de que a filmagem aconteceu exatamente na época retratada. Por várias vezes, me peguei em dúvida se as imagens que conferia na telona eram reproduções fidedignas do passado ou se foram utilizados bancos de vídeos antigos. Essa dúvida que surge na mente da plateia na sala de cinema é mérito da excelente fotografia. Até o jogo de luzes amarelas e alaranjadas, que até hoje não sei o porquê havia nos vídeos e nas fotografias das décadas de 1970 e 1980, estão lá para impactar o público. Incrível, né?! O diretor de arte foi Carlos Conti.
Nessa impecável reconstituição histórica, a música é parte fundamental na composição da atmosfera da trama de Eunice Paiva e de sua família. A trilha sonora de “Ainda Estou Aqui” é, ao mesmo tempo, excelente e condizente com a narrativa do longa-metragem. As letras das canções dialogam intimamente com os acontecimentos das cenas e não são mero fundo melódico. Aí explodem hits da Jovem Guarda, da Tropicália e da MPB. Alguns dos músicos que dão voz ao filme são Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Tom Zé, Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil e Os Mutantes. Vale a pena dizer que o responsável pela trilha sonora desta produção foi Warren Ellis. Nesse sentido, o longa-metragem de Walter Salles acompanhou o livro de Marcelo Rubens Paiva, que possui uma forte carga musical.
Comecei minha análise propriamente dita pela parte técnica (cenografia, figurino, fotografia e musicalidade) para dizer que esse conjunto de elementos dá enorme tensão dramática a “Ainda Estou Aqui”. Essa é justamente a maior diferença da versão cinematográfica em relação à obra literária na qual foi inspirada. Acredite se quiser, mas o texto de Marcelo não tem uma gota de suspense nem de tensão que o longa-metragem de Salles destila desde as primeiras cenas. Achei tal acréscimo fundamental para mexer com as emoções da plateia. Sem a agonia da protagonista para entender o que está acontecendo e sem o medo de ser alvo dos militares, o filme não teria a mesma graça.

Por isso, os jogos de luzes de claro-escuro, os silêncios melodramáticos, a câmera que oscila entre a posição estática e o balançar frenético, a rede de mentiras contada tanto pelo governo e a mídia nacional quanto pela mãe e pelo pai de família no âmbito doméstico e, principalmente, a falta de esclarecimentos do que está acontecendo colaboram para potencializar ainda mais o suspense. Eu classificaria “Ainda Estou Aqui” como um drama psicológico ou um thriller aterrorizante. Porém, entendo quem o enxergue mais como uma narrativa histórica e como uma saga familiar, definições que para mim são mais pertinentes ao livro de Marcelo Rubens Paiva do que para o filme de Walter Salles.
Outro elogio que não posso deixar de fazer é para o roteiro do longa. Ele está redondo, redondinho. Até acho que esse trabalho de Murilo Hauser e Heitor Lorega merecia ao menos uma indicação ao Oscar de Roteiro Adaptado – a estatueta de 2025 nessa categoria foi para “Conclave”. As escolhas que embasaram o roteiro de “Ainda Estou Aqui” me pareceram acertadíssimas na maior parte do tempo.
Em primeiro lugar, ao optar pela narração em ordem cronológica, algo diferente do livro, os roteiristas potencializaram o drama. O longa-metragem começa em dezembro de 1970 e mostra o quanto a família Paiva é feliz no Rio de Janeiro. Aí vamos para o fatídico dia do sumiço de Rubens Paiva. Nesse instante, a plateia não consegue piscar os olhos da tela e mergulha no drama das personagens. Mesmo sabendo o que irá acontecer (afinal, a história dos Paiva é conhecida pelo grande público desde a Redemocratização do país), ainda assim somos envolvidos pelo clima de terror e tensão do enredo.
Falo que esse é um dos méritos do roteiro cinematográfico porque não temos grande tensão dramática no livro de Marcelo Rubens Paiva. A obra literária inicia-se com Eunice já velhinha e com problemas de memória. Antes de falar o que se passou há 50 anos, o autor relata o que a mãe fez anos antes de sofrer de Alzheimer. A pegada da publicação é mais de biografia da mãe na fase de maturidade do que de denúncia dos crimes da Ditadura, algo que só surge nas páginas do título literário na metade final.

Além disso, a câmera da produção de Walter Salles acompanha livremente várias personagens, e não apenas o pequeno Marcelo então com 11 anos. O destaque é claro para Eunice, a protagonista. A esposa do ex-deputado também é a figura central da obra autobiográfica do filho, mas lá Marcelo Rubens Paiva tem mais destaque (o texto é narrado em primeira pessoa). No filme, ele aparece pontualmente, como as demais irmãs. Achei correta a escolha do foco narrativo do filme para destacar o drama de Eunice e de Rubens. Acho que não faria sentido ficar mostrando o escritor.
Há outras intervenções felizes dos roteiristas. Por exemplo, inserir o cachorrinho Pimpão no filme, algo inexistente no livro, deu mais drama à história. Além disso, o longa-metragem mostra que os filhos ficaram em casa esperando a mãe voltar do interrogatório, episódio que sabemos que não aconteceu pelas páginas da obra de Marcelo Rubens Paiva. Na prática, ninguém seria louco de deixar três crianças pequenas numa casa visada pelos brucutus do Exército, né? Ainda assim, a cena da mãe retornando para o lar com a meninada sozinha e ávida por sua presença é fortíssima e tocante no longa-metragem.
O filme “Ainda Estou Aqui” também mostra muita coisa sem cair na explicação didática, o que atrapalharia o ritmo narrativo. Essa postura indireta e sutil de relatar os acontecimentos macro é feliz na maioria das vezes. Por exemplo, a citação ao acidente de Marcelo quando ele chega ao Cartório da Sé de cadeira de rodas é inteligentíssima. Em uma ou duas frases do discurso, o público que não conhece a história do escritor entende o que aconteceu com ele. O mesmo princípio se aplica a vários episódios da família: cassação de Rubens Paiva, dificuldade financeira de Eunice após o desaparecimento do marido etc. Por outro lado, não fica claro que a dificuldade da protagonista em contar o dinheiro já na parte final do filme é reflexo de problemas neurológicos do envelhecimento (a cena é muito rápida). Nem que ela emagreceu muitos quilos nos dias em que ficou presa na unidade carioca do DOI-CODI (algo que só quem leu o livro sabe).
A atuação do elenco é mais um aspecto que merece nossos rasgados elogios. A surpresa foi conferir que não é apenas Fernanda Torres que está magnifica. É claro que seu desempenho salta aos olhos desde as primeiras cenas e só foi crescendo, crescendo e crescendo ao longo da sessão. Todos os prêmios que ela recebeu são merecedores. Contudo, gostaria de destacar o trabalho dos demais atores do longa-metragem de Walter Salles. Todos estiveram à altura da excelência dessa produção, dos coadjuvantes aos figurantes. Nesse sentido, foi muito legal notar que até a meninada se saiu muitíssimo bem. Sempre há o risco de o desempenho cênico cair ou ter oscilações substanciais quando há muitos atores mirins. Mas não foi isso o que aconteceu em “Ainda Estou Aqui”. Em alguns momentos, a garotada conseguiu até roubar a cena e emocionar a plateia.

Por tudo o que você está escrevendo aqui, Ricardo, quer dizer, então, que este filme não tem problema nenhum? Calma, calma, intrépido(a) e insistente leitor(a) imaginário(a) do Bonas Histórias. A produção cinematográfica brasileira mais comentada nos últimos anos tem algumas questões sim que me incomodaram um pouco. A primeira foi a perda da tensão dramática no terço final do longa-metragem. Quando Eunice descobre o que se passou com o marido, a história perde grande parte de sua força. Por mais incrível que seja o poder de superação da protagonista, o final de “Ainda Estou Aqui” me pareceu um tanto arrastado. Talvez um corte mais apropriado no que mostrar e, principalmente, no que não mostrar na saga dos Paiva poderia ter tornado o desfecho mais emocionante. Afinal, alguns elementos da narrativa ficcional que funcionaram perfeitamente no livro (como a perda da memória de Eunice) não tiveram o mesmo impacto no filme.
Entretanto, o que mais me incomodou foi a configuração das características das principais personagens do filme. Tanto Eunice quanto Rubens Paiva são figuras totalmente planas, o que dá um caráter de inverossimilhança à trama. Se eles possuíssem um perfil mais redondo, certamente a história ganharia em riqueza e colorido. Curiosamente, foi esse elemento que me surpreendeu positivamente no livro de Marcelo. O escritor retrata a mãe e o pai com tintas mais reais e fidedignas, demonstrando aspectos positivos e aspectos negativos de suas personalidades.
Por exemplo, pelas páginas da publicação literária, sabemos que Eunice Paiva era uma mulher pouquíssimo carinhosa e esteve ausente na criação da filharada antes mesmo do desaparecimento do marido. Depois que Rubens sumiu nos calabouços da Ditadura Militar brasileira, aí sim que a criançada não viu mais a mãe por perto no dia a dia. Ela também é descrita como vaidosa e pouco emotiva. Por mais que sejam elementos negativos, esses componentes dão um caráter de concretude à protagonista. Lembremos que ninguém é 100% heroico nem 100% vilão. A graça está justamente na compreensão dos diferentes tons das personalidades retratadas. Juro que lendo o livro, me sensibilizou o relato do filho dizendo que nunca foi abraçado pela mãe. O que ele queria, muitas vezes, era um simples abraço dela.
O próprio Rubens Paiva é descrito no livro pelo filho e pela esposa quase como um inconsequente. Por mais que sua atitude de ajudar os compatriotas perseguidos pelos milicos e auxiliar as famílias vítimas da violência de Estado seja admirável, ainda assim ele colocou a família em risco. Esse tipo de crítica dos parentes ao comportamento imprudente do ex-deputado é visto no livro, mas não presenciamos com a mesma ênfase no filme. Confira, a seguir, dois trechos que pincei da obra de Marcelo que menciona Rubens como uma figura redonda:

“Papai foi preso. Papai sempre tem problemas. Papai é um político perseguido. Desde que me entendo por gente, papai tem problemas com gente poderosa, foge, reaparece, se esconde. No Brasil, muitos têm problemas. Papai uma vez nos explicou. Os gorilas, como ele chamava os militares, tomaram o poder porque não queriam reformas que ajudassem aos pobres, assim nos explicava. Eu adorava a alusão de que aqueles caras que apareciam fardados de óculos escuros na TV e mandavam no Brasil eram gorilas” (página 105).
“Não sei o que se passava pela cabeça do meu pai. Ele sabia que o cerco apertava. Apesar de não estar envolvido diretamente com a luta armada, escondia gente, dava dinheiro, ajudava os mais desesperados, trocava informes, viajava e fazia contato com brasileiros no exílio, lideranças do governo deposto, denunciava tortura, prisões arbitrárias, censura, tinha amigos correspondentes estrangeiros, com muitos da esquerda brasileira, ou democratas, ou enjoados com o terror praticado pela ditadura, ou traídos por ela, que davam dinheiro, ajudavam os perseguidos, faziam contatos, denunciavam arbitrariedades de um regime de terror. Ele andava tenso, queria dar um tempo, se dedicar mais à família; dizia isso aos amigos. Estava na cara que deveríamos ter partido para o exílio. Todos foram. Era a lógica para alguém visado (...). A pergunta: por que ele atrasou tanto a nossa partida? Arrogância? Confiança? Dever ideológico?” (Página 92).
Também tive dificuldade para notar o envelhecimento de Eunice Paiva do início dos anos 1970 para meados da década de 1990. Passados 25 anos, achei que a personagem interpretada por Fernanda Torres mudou muito pouco ou quase nada. Por isso, achei estranho que 25 anos mais tarde, em 2014, surja Fernanda Montenegro em cena. Por mais impactante que seja a presença da grande dama da dramaturgia brasileira no filme, me pareceu equivocada o salto temporal. Contudo, talvez isso possa ter sido só uma percepção equivocada da minha parte e não uma falha efetiva do filme.
Por fim, a troca do narrador em primeira pessoa do livro pela “narração em terceira pessoa” (vamos chamar assim o recurso da câmera solta) do filme foi inegavelmente uma opção acertada dos roteiristas. Por mais vantagens que essa escolha tenha trazido, é legal mencionar que as plateias das telonas perderam algumas ótimas passagens que Marcelo Rubens Paiva registrou nas páginas de sua publicação e que não puderam ser aproveitadas no longa de Walter Salles por conta da mudança de narrador. Veja alguns dos trechos do livro que mais gostei:

“Minha mãe esteve na capa de todos os principais jornais no dia seguinte. Com o atestado de óbito erguido, alegre. Uma batalha foi vencida. V de vitória. Ela nunca faria uma cara triste. Bem que tentaram. Por anos, fotógrafos nos queriam tristes nas fotos. Tivemos nossa guerra fria contra o pieguismo da imprensa. Com o tempo, aprendemos a selecionar qual órgão evitar e como nos portar. Éramos “a família vítima da ditadura”. Apesar de preferirmos a legenda “uma das muitas famílias vítimas de muitas ditaduras”. Não faríamos o papelão de sairmos tristes nas fotos. Nosso inimigo não iria nos derrubar. Família Rubens Paiva não chora na frente das câmeras, não faz cara de coitada, não se faz de vítima e não é revanchista. Trocou o comando, continua em pé e na luta. A família Rubens Paiva não é vítima da ditadura, o país que é. O crime foi contra a humanidade, não contra Rubens Paiva. Precisamos estar saudáveis, bronzeados para a contraofensiva. Angústia, lágrimas, ódio, apenas entre quatro paredes. Foi minha mãe quem ditou o tom, ela quem nos ensinou” (página 31 e 32).
“Sabemos muito bem que o terror que reinou no país foi obra de parte dos militares. Sabemos muito bem que não se fazem generalizações sem acirramento ideológico. Militares foram os que mais sofreram nas mãos dos militares durante a ditadura. Muitos foram presos, expulsos, humilhados, exilados, torturados e mortos. Aliás, grande parte dos que combateram a ditadura militar, desde o seu começo, foram militares contrários ao regime. Muitos caíram na luta armada. Fundaram até uma organização clandestina, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), de sargentos, tenentes e capitães descontentes. Sabemos que “a linha dura” manchou o nome da instituição que lutou na Guerra do Paraguai, proclamou a República, lutou contra o nazifascismo na Itália e se levantou em nome da democracia em 1945. Sempre soubemos que o nosso inimigo não vestia farda. Era um regime, não uma carreira” (página 33 e 34).
Deu para notar que esses tropeços do roteiro não são significativos nem diminuem a qualidade do filme de Walter Salles. Se “Ainda Estou Aqui” não é uma produção cinematográfica perfeita, como não era nenhum dos postulantes ao Oscar desse ano (talvez o único título sem falhas evidentes tenha sido “O Brutalista”, por isso o apontava como favorito à principal estatueta de 2025), ainda assim é espetacular. Prova disso é que, em muitos elementos, o longa-metragem brasileiro chega até a ser melhor do que o livro no qual foi baseado. Vamos combinar que não é todo dia que você me ouve falar algo desse tipo, né?
A evidência da força e do alcance do filme pode ser resumida na última cena (calma que não vou dar o spoiler). Enquanto as letras dos créditos sobem na tela, a plateia percorre mais uma vez a casa da família Paiva no Leblon. Metaforicamente, o que sentimos nesse momento é a mesma reação dos familiares que tiveram parentes desaparecidos e que jamais souberam o que aconteceu com eles. É espetacular essa associação meio psicológica, meio sinestésica.
Assista, a seguir, ao trailer de “Ainda Estou Aqui” (2024):
As indicações e as premiações que o filme de Walter Salles recebeu nos principais eventos cinematográficos do planeta, algumas de caráter inédito, fizeram muitos críticos o apontarem como a melhor produção brasileira da história. Para ser bem franco, não concordo com essa posição tão exagerada. Continuo achando “Cidade de Deus” o melhor longa-metragem já feito em nosso país. Ele só não conquistou o Oscar de 2003 nem foi mais feliz nos principais festivais internacionais por pura incompetência de quem o divulgou. Porque tecnicamente, o trabalho de Fernando Meirelles é irretocável e se mantém na posição mais alta do meu pódio dos melhores dos melhores do cinema brasileiro.
E depois de “Cidade de Deus”, Ricardo, o que você considera como sendo o melhor filme?! Tá bom, tá bom, curioso(a) e insistente leitor(a) da coluna Cinema. Aí reconheço que o segundo título no meu ranking de excelência nacional vem “Ainda Estou Aqui”. Do ponto de vista da experiência cinematográfica, da riqueza da narrativa e da qualidade audiovisual, ele está à frente de clássicos do cinema brasileiro como “O Pagador de Promessas” (1962), “Vidas Secas” (1963), “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) e “Terra em Transe” (1967).
Até porque, confesso bastante envergonhado, nunca nutri grande apreço pelos títulos da Era de Ouro da nossa Sétima Arte. Por exemplo, jamais consegui ver “O Pagador de Promessas” sem cair no sono profundo – o que mostra um erro crônico em seu roteiro e/ou um ritmo narrativo para lá de parado. E acho um tanto amadoras as principais produções de Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos. Se comparados com “Cidadão Kane” (Citizen Kane: 1941) e “Casablanca” (1942), produções de duas décadas antes, os filmes brasileiros dos anos 1960 parecem coisas de criança.
NÃO ACREDITO NO QUE VOCÊ ESCREVEU NOS DOIS PARÁGRAFOS ACIMA, RICARDO!!! Você um baba-ovo dos cineastas gringos e de Hollywood, isso sim! Não sabe valorizar a arte e a cultura nacional. Só criou o Bonas Histórias para falar mal das produções brasileiras. Onde já se viu criticar os cânones do nosso cinema. Aposto que lá no fundo você torceu contra “Ainda Estou Aqui” no Oscar deste ano. Pensa que me engana, hein?! Eu bem sabia que essa sua mania de ficar falando bem do cinema argentino só comprova a sua pulada de cerca para o lado inimigo. Não duvido que você seja bolsominion, tenha um porta-retrato do Elon Musk pendurado na sala de casa e tenha tatuado a bandeira norte-americana no braço. Que decepção, Ricardo! Se eu pudesse, ia aí e falava poucas e boas na sua frente! Vai pra Cuba, vai!
Ai, ai, ai. Vai começar tudo de novo... Desisto. Pensem o que vocês quiserem de mim e me cancelem! Não aguento mais me defender desse(a) leitor(a) maluco(a) do blog que insiste em me acusar de tudo.
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